Participei recentemente, em São Paulo, do evento Rise Together, promovido pela Pfizer, que reuniu especialistas em oncologia e urologia para discutir os avanços mais recentes no tratamento do câncer de bexiga músculo-invasivo (CBMI). O encontro trouxe dados atualizados dos estudos EV-303/KEYNOTE-905 e EV-304/KEYNOTE-B15, que sustentam uma mudança real na forma como tratamos essa doença — e que já tem impacto direto na prática clínica no Brasil, com a recente aprovação da ANVISA para essa nova estratégia terapêutica.
Neste artigo, explico o que mudou, por que essa aprovação é relevante e o que ela representa para pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo.

O que é o câncer de bexiga músculo-invasivo
O câncer de bexiga músculo-invasivo (CBMI) é a forma mais agressiva da doença, na qual o tumor já ultrapassa a mucosa e invade a camada muscular da bexiga. Diferente da forma não invasiva, que costuma ser tratada de forma mais conservadora, o CBMI está associado a maior risco de progressão, metástase e mortalidade, exigindo abordagem multidisciplinar e, na maioria dos casos, cirurgia de remoção da bexiga (cistectomia radical).
Historicamente, o tratamento padrão para pacientes candidatos à cirurgia envolvia quimioterapia neoadjuvante à base de cisplatina antes da cistectomia. O problema é que uma parcela significativa dos pacientes — por comorbidades, função renal reduzida ou outras limitações clínicas — não é elegível para esse esquema, restando historicamente com opções terapêuticas mais limitadas.
Novo tratamento para câncer de bexiga: como funciona
É exatamente nesse cenário que se insere a combinação discutida no evento da Pfizer: enfortumabe vedotina (Padcev®) associado ao pembrolizumabe (Keytruda®).
O enfortumabe vedotina é um conjugado anticorpo-fármaco (ADC) direcionado à nectina-4, proteína altamente expressa nas células do carcinoma urotelial. Após a ligação ao alvo, o complexo é internalizado pela célula tumoral, liberando monometil auristatina E (MMAE), um agente citotóxico que interrompe a divisão celular e leva à morte da célula cancerígena. O pembrolizumabe, por sua vez, é um inibidor de PD-1 que atua modulando a resposta imunológica, ajudando o próprio organismo a reconhecer e combater as células tumorais.
A combinação dos dois mecanismos — ação citotóxica direta somada à potencialização da resposta imune — é o que torna essa estratégia particularmente interessante para pacientes que não podem receber cisplatina.
Os dados por trás da aprovação: EV-303/KEYNOTE-905
O principal estudo apresentado no Rise Together, e que embasou a aprovação regulatória, foi o EV-303 (também conhecido como KEYNOTE-905), um ensaio clínico de fase 3, internacional, multicêntrico e randomizado.
O desenho do estudo incluiu 344 pacientes com CBMI virgens de tratamento, candidatos à cistectomia radical com linfadenectomia pélvica, mas inelegíveis para quimioterapia baseada em cisplatina. Os participantes foram randomizados na proporção 1:1 para dois braços:
- Braço experimental: pembrolizumabe + enfortumabe vedotina no período neoadjuvante (antes da cirurgia), seguidos de cistectomia radical e, depois, tratamento adjuvante com a combinação seguida de pembrolizumabe isolado
- Braço controle: cirurgia (cistectomia radical com linfadenectomia pélvica) isolada, sem tratamento sistêmico associado
Os resultados apresentados foram expressivos. Houve melhora estatisticamente significativa em sobrevida livre de eventos (EFS) e sobrevida global (OS) no grupo tratado com pembrolizumabe e enfortumabe vedotina antes e depois da cistectomia, em comparação à cirurgia isolada. Em termos numéricos, a EFS mediana não foi atingida no grupo da combinação, contra 15,7 meses no grupo submetido apenas à cirurgia (razão de risco de 0,40) — uma redução de aproximadamente 60% no risco de recorrência, progressão da doença ou morte. O estudo também demonstrou redução de 50% no risco de morte no grupo tratado com a combinação em relação à cirurgia isolada.
Além dos desfechos de sobrevida, os dados também mostraram aumento expressivo na taxa de resposta patológica completa (pCR) — ou seja, uma proporção maior de pacientes chegou à cirurgia sem evidência residual de tumor após o tratamento neoadjuvante, um marcador historicamente associado a melhores desfechos em longo prazo.

E o estudo EV-304/KEYNOTE-B15?
O segundo estudo discutido no evento, o EV-304 (KEYNOTE-B15), avalia uma população semelhante, mas amplia a investigação da combinação enfortumabe vedotina + pembrolizumabe no contexto perioperatório, reforçando a consistência dos achados de eficácia observados no EV-303 e contribuindo para consolidar essa combinação como uma nova alternativa terapêutica relevante para o cenário de câncer de bexiga músculo-invasivo. Os dados apresentados no Rise Together aprofundaram aspectos de segurança e subgrupos específicos de pacientes, complementando o panorama já estabelecido pelo EV-303.
Câncer de bexiga: o que muda com a aprovação da ANVISA
O ponto mais relevante para a prática clínica brasileira é que essa estratégia deixou de ser apenas uma discussão de congresso internacional. A ANVISA aprovou, por meio da Resolução nº 2.162/2026, publicada no Diário Oficial da União, uma nova indicação terapêutica para o Padcev® (enfortumabe vedotina) em combinação com pembrolizumabe, especificamente como tratamento perioperatório de pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo elegíveis à cistectomia radical, porém inelegíveis à quimioterapia contendo cisplatina.
Na prática, isso significa que:
- A combinação pode ser utilizada antes da cirurgia (neoadjuvante), com o objetivo de reduzir a carga tumoral e aumentar as chances de resposta patológica completa
- O tratamento continua após a cistectomia radical (adjuvante), buscando reduzir o risco de recidiva
- A indicação é voltada especificamente para pacientes inelegíveis à cisplatina — grupo que, até então, tinha menos alternativas terapêuticas eficazes disponíveis no país
Essa aprovação regulatória é uma mudança concreta e esperada pela comunidade urológica e oncológica brasileira, alinhando o Brasil aos principais protocolos internacionais discutidos em congressos e, agora, também no Rise Together.
Por que isso importa para pacientes com câncer de bexiga
Antes dessa aprovação, pacientes com CBMI inelegíveis à cisplatina — frequentemente por função renal reduzida, comorbidades cardiovasculares ou estado funcional limitado — tinham como alternativa principal a cirurgia isolada, sem tratamento sistêmico associado, ou esquemas de quimioterapia alternativos com eficácia menos consistente.
Com a nova indicação, esse grupo de pacientes passa a contar com uma opção terapêutica que demonstrou, em estudo de fase 3 robusto, redução expressiva no risco de progressão, recorrência e morte. Isso é particularmente relevante considerando que o câncer de bexiga músculo-invasivo apresenta historicamente altas taxas de recorrência, mesmo após cirurgia bem-sucedida.
Do ponto de vista prático, a decisão sobre elegibilidade para cisplatina, a indicação da combinação e o acompanhamento antes e depois da cirurgia exigem avaliação individualizada por equipe especializada, considerando função renal, performance status e demais características clínicas de cada paciente.
Considerações sobre segurança
Como todo tratamento oncológico sistêmico, a combinação enfortumabe vedotina + pembrolizumabe não é isenta de riscos e exige monitoramento cuidadoso. O enfortumabe vedotina possui alerta importante para reações cutâneas graves, incluindo síndrome de Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica, que podem ocorrer principalmente no primeiro ciclo de tratamento, mas também em ciclos posteriores. Também é necessário monitoramento de hiperglicemia, neuropatia periférica e alterações oculares. Já o pembrolizumabe, por seu mecanismo imunomodulador, pode causar eventos adversos imunomediados que afetam diferentes órgãos e sistemas.
Esses aspectos reforçam a importância de essa estratégia ser conduzida por equipe multidisciplinar experiente, com acompanhamento clínico rigoroso antes, durante e após o tratamento cirúrgico.
Mensagem do Dr Felipe Vidigal
O evento Rise Together, da Pfizer, reforçou um momento importante para a urologia oncológica brasileira: a consolidação de dados robustos de estudos como o EV-303/KEYNOTE-905 e o EV-304/KEYNOTE-B15, agora acompanhada da aprovação regulatória da ANVISA para essa nova combinação no tratamento perioperatório do câncer de bexiga músculo-invasivo. Trata-se de um avanço concreto para um grupo de pacientes que, até recentemente, tinha alternativas terapêuticas limitadas — e que agora passa a contar, também no Brasil, com uma estratégia validada por evidência científica de alto nível.
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