Neste artigo, o Dr. Felipe Vidigal, urologista com vasta experiência no tratamento da doença de Peyronie, aborda de forma clara e acessível os principais aspectos dessa condição que ainda é pouco discutida — mas que afeta milhões de homens em silêncio. Se você percebeu uma curvatura no pênis, sentiu dor durante a ereção ou encontrou um nódulo no corpo peniano, este conteúdo foi escrito para você. Aqui você vai entender o que está acontecendo, por que acontece e — o mais importante — que existem soluções reais e eficazes.
O Que é a Doença de Peyronie?

A doença de Peyronie (DP) é uma condição inflamatória e fibrótica adquirida que afeta a túnica albugínea — a camada de tecido conjuntivo que envolve os corpos cavernosos do pênis. Nessa doença, o processo de cicatrização anormal leva à formação de placas rígidas de tecido fibroso, que podem causar curvatura, encurtamento, estreitamento e deformidade peniana durante a ereção.
Ao contrário do que muitos homens imaginam, a doença de Peyronie não é rara. Estudos recentes indicam prevalência entre 3% e 13% da população masculina adulta, com maior incidência em homens acima dos 40 anos. Estima-se que nos Estados Unidos ela afete até 1 em cada 9 homens — e no Brasil, a subnotificação é expressiva, pois muitos pacientes evitam procurar ajuda por vergonha ou desconhecimento de que existem tratamentos eficazes.
Além do impacto físico, a doença de Peyronie tem profundo efeito psicológico: ansiedade, depressão, baixa autoestima e conflitos nos relacionamentos são frequentes entre os pacientes. Por isso, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado são fundamentais.
Causas e Fatores de Risco
A etiologia exata da doença de Peyronie ainda não é completamente compreendida, mas o mecanismo mais aceito envolve microtraumas repetitivos ou um trauma único na túnica albugínea durante a atividade sexual ou em decorrência de ereções noturnas. Em indivíduos geneticamente predispostos, esse trauma desencadeia uma resposta inflamatória mal controlada que resulta na deposição excessiva de colágeno e na formação das placas fibróticas.
Os principais fatores de risco identificados incluem:
Disfunção erétil preexistente: ereções incompletas aumentam o risco de microtrauma durante a atividade sexual
Idade: mais comum entre 45 e 65 anos, embora possa ocorrer em qualquer faixa etária adulta
Predisposição genética: associação com a contratura de Dupuytren (fibrose palmar) e outras fibromatoses
Diabetes mellitus: altera a cicatrização e favorece processos fibróticos
Hipertensão arterial e doenças vasculares: comprometem a microcirculação peniana
Uso de betabloqueadores: alguns estudos apontam associação com o uso prolongado dessas medicações
Histórico de cirurgia prostática ou trauma pélvico: cirurgias como a prostatectomia radical podem precipitar a doença
Tabagismo: prejudica a reparação tecidual e agrava a fibrose
Fases da Doença de Peyronie

A doença de Peyronie evolui em duas fases distintas, e compreendê-las é essencial para definir a estratégia de tratamento correta:
Fase Aguda (Ativa)
Dura em média de 6 a 18 meses desde o início dos sintomas. Nessa fase, o processo inflamatório está ativo e o paciente pode apresentar:
- Dor peniana durante a ereção ou ao toque
- Formação progressiva e instável da placa fibrótica
- Curvatura peniana em evolução ou mudanças no grau de deformidade
- Ansiedade e sofrimento psicológico intensos
O manejo nessa fase é voltado para controle da dor e desaceleração da progressão da fibrose. Evitar procedimentos cirúrgicos durante a fase ativa é uma recomendação amplamente aceita pelas principais diretrizes internacionais, pois a curvatura ainda está em mudança.
Fase Estável (Crônica)
É definida quando a curvatura peniana permanece inalterada por pelo menos 3 a 6 meses consecutivos. A dor geralmente desaparece nessa fase. É nesse momento que as opções de tratamento definitivo — especialmente a cirurgia — passam a ser indicadas.
Sintomas: Como Identificar a Doença de Peyronie
Os sintomas variam de paciente para paciente, mas os mais frequentes são:
- Curvatura peniana anormal durante a ereção (para cima, para baixo ou lateralmente)
- Nódulo ou placa palpável no corpo do pênis, mesmo sem ereção
- Dor peniana durante ou após relação sexual, ou mesmo em repouso (mais comum na fase aguda)
- Encurtamento do pênis devido à retração causada pela placa
- Estreitamento ou formato de ampulheta do pênis (indentação)
- Disfunção erétil — pode ser consequência direta da fibrose ou do impacto psicológico da condição
- Dificuldade ou impossibilidade de penetração em casos de curvatura acentuada
É importante destacar que a presença de qualquer um desses sintomas justifica uma consulta com um urologista especializado. Quanto mais precoce o diagnóstico, maiores as chances de resposta aos tratamentos conservadores.
Como é Feito o Diagnóstico?
O diagnóstico da doença de Peyronie é fundamentalmente clínico, baseado na história do paciente e no exame físico. O urologista avalia:
- Presença e localização da placa fibrótica à palpação
- Grau e direção da curvatura peniana
- Comprimento peniano (em repouso e em ereção)
- Função erétil
Em casos selecionados, pode ser solicitada uma ultrassonografia peniana com Doppler, exame que permite:
- Visualizar a placa fibrótica com precisão
- Verificar a presença de calcificações (que impactam na escolha do tratamento)
- Avaliar o fluxo sanguíneo e descartar componente vascular associado à disfunção erétil
Fotografias padronizadas da curvatura em ereção (seja espontânea ou induzida por alprostadila intracavernosa no consultório) são também importantes para documentar o grau de deformidade e acompanhar a evolução ao longo do tratamento.
Tratamentos disponíveis

Opções de Tratamento da Doença de Peyronie
O tratamento deve ser individualizado e depende da fase da doença, do grau de curvatura, da função erétil, do impacto na vida sexual e das preferências do paciente. As opções se dividem em conservadoras (não cirúrgicas) e cirúrgicas.
1. Tratamento Conservador — Fase Aguda
Medicamentos Orais
Embora nenhum medicamento oral tenha eficácia comprovada de forma robusta em ensaios clínicos randomizados, alguns são utilizados na prática clínica com o objetivo de reduzir a progressão da fibrose durante a fase aguda:
- Pentoxi filina: anti-inflamatório e antiproliferativo com alguma evidência de redução da fibrose
- Vitamina E: baixo custo, amplamente utilizado, mas com evidências limitadas
- Colchicina: propriedades antifibróticas, com uso histórico no manejo da DP
- L-carnitina: pode ter efeito anti-inflamatório e protetor celular
Injeções Intralesionais
As injeções diretamente na placa fibrótica são o principal tratamento não cirúrgico com evidência científica consolidada. As substâncias mais utilizadas são:
- Colagenase de Clostridium histolyticum (CCH): é o único tratamento não cirúrgico aprovado por agências regulatórias internacionais (FDA nos EUA) para a doença de Peyronie. Age degradando enzimaticamente o colágeno da placa fibrótica. Os estudos de fase III (IMPRESS I e II) demonstraram redução média significativa no grau de curvatura e melhora nos escores de satisfação dos pacientes. O protocolo padrão envolve ciclos de injeções seguidos de modelagem peniana. Dados de 2025 mostram taxa de adesão ao tratamento completo de aproximadamente 71%, com melhores resultados nos pacientes que completam todos os ciclos.
- Interferon alfa-2b: estimula a produção de colagenase pelo próprio organismo e reduz a síntese de colágeno. Boa tolerabilidade com evidências favoráveis em estudos controlados.
- Verapamil: bloqueador de canal de cálcio com propriedades antifibróticas. Amplamente utilizado, especialmente onde a CCH não está disponível ou é inacessível financeiramente.
Terapia de Ondas de Choque de Baixa Intensidade (LiSWT)
A litotripsia extracorpórea focada na placa fibrótica é uma opção não invasiva que tem demonstrado eficácia principalmente no controle da dor durante a fase aguda. Seu efeito sobre a curvatura propriamente dita é mais limitado, mas pode ser uma alternativa complementar para pacientes que não toleram injeções ou como parte de um protocolo multimodal.
Terapia de Tração Peniana
Dispositivos de tração mecânica têm sido estudados como adjuvantes no manejo da doença de Peyronie. Seus potenciais benefícios incluem melhora do comprimento peniano e redução da curvatura. Requerem uso regular e disciplinado pelo paciente por várias horas ao dia, e os resultados são modestos quando utilizados isoladamente.
2. Tratamento Cirúrgico — Fase Estável
A cirurgia é o padrão-ouro para a correção da curvatura peniana na doença de Peyronie em fase estável. É indicada quando:
- A curvatura compromete ou impossibilita a penetração
- O paciente está insatisfeito com os resultados dos tratamentos conservadores
- A doença está estável por pelo menos 3 a 6 meses
- O paciente está bem informado sobre os riscos e benefícios
As principais técnicas cirúrgicas são:
Plicatura (Procedimentos de Encurtamento)
Consiste em encurtar o lado convexo do pênis para corrigir a curvatura, sem envolver a placa diretamente. É a técnica mais simples, com baixa taxa de complicações e boa eficácia para curvaturas inferiores a 60° em pacientes com comprimento peniano preservado e boa função erétil. A técnica de Nesbit e suas modificações são as mais utilizadas.
Vantagens: menor complexidade cirúrgica, baixas taxas de disfunção erétil pós-operatória, alta taxa de correção da curvatura.
Desvantagem: pode resultar em pequena redução do comprimento peniano.
Enxertia (Incisão/Excisão e Enxerto)
Indicada para curvaturas superiores a 60° ou deformidades complexas (como o formato de ampulheta). Nessa técnica, a placa é incisada ou excisada e o defeito resultante é corrigido com enxerto de tecido — que pode ser autólogo (fáscia do próprio paciente) ou de materiais biológicos sintéticos disponíveis comercialmente.
Vantagem: melhor preservação do comprimento peniano em relação à plicatura.
Desvantagem: maior complexidade técnica, com risco mais elevado de disfunção erétil pós-operatória.
Prótese Peniana
Em pacientes com doença de Peyronie associada a disfunção erétil grave que não respondem a tratamento clínico, a implantação de prótese peniana inflável é a melhor opção. Além de tratar a disfunção erétil, o dispositivo permite a modelagem intraoperatória da curvatura, corrigindo a deformidade simultaneamente.
Impacto Psicológico e Qualidade de Vida
Um aspecto que merece atenção especial é o impacto emocional da doença de Peyronie. Estudos mostram que homens com DP apresentam taxas elevadas de depressão, ansiedade e disfunção sexual de origem psicogênica. O relacionamento conjugal também pode ser significativamente afetado.
Por essa razão, uma abordagem integral ao paciente — que inclua suporte psicológico e, quando necessário, terapia de casal — é parte essencial do cuidado. O urologista bem treinado no manejo da DP deve reconhecer esses aspectos e encaminhar o paciente para apoio especializado quando necessário.
Quando Procurar um Urologista?
Você deve buscar avaliação urológica especializada se perceber:
- Qualquer curvatura nova ou progressiva do pênis durante a ereção
- Nódulo ou endurecimento palpável no corpo do pênis
- Dor peniana durante relações sexuais ou ereções espontâneas
- Dificuldade de penetração relacionada à deformidade peniana
- Encurtamento perceptível do pênis ao longo do tempo
- Ansiedade ou sofrimento emocional relacionados a mudanças no pênis
Não espere os sintomas se agravarem. O tratamento iniciado na fase aguda pode desacelerar a progressão da doença e ampliar as opções terapêuticas disponíveis.
5 Curiosidades sobre a Doença de Peyronie que Você Provavelmente Não Sabia
A doença de Peyronie carrega uma história e particularidades que vão muito além do consultório. Confira cinco fatos surpreendentes sobre essa condição:
🔹 1. O nome vem de um médico do século XVIII — que nunca descreveu a doença com precisão A doença leva o nome do cirurgião francês François Gigot de la Peyronie, médico do rei Luís XV da França, que descreveu a condição em 1743. Curiosamente, registros históricos sugerem que casos compatíveis com a doença já haviam sido descritos anteriormente por outros autores europeus — mas o nome de Peyronie ficou na história da medicina. Ele próprio acreditava que a condição era causada por “gonorreia mal tratada”, uma hipótese completamente equivocada pelos padrões atuais.
🔹 2. Até 15% dos casos podem melhorar espontaneamente — mas a maioria não regride Estudos clínicos mostram que uma minoria de pacientes (em torno de 10% a 15%) experimenta alguma melhora espontânea da curvatura ao longo do tempo, especialmente durante a transição da fase aguda para a estável. No entanto, na maioria dos casos a curvatura se mantém estável ou progride. Isso significa que “esperar para ver” raramente é uma estratégia satisfatória — e o acompanhamento médico ativo sempre é recomendado.
🔹 3. A doença de Peyronie tem relação genética com a contratura de Dupuytren A contratura de Dupuytren — uma fibrose que afeta a palma da mão e faz os dedos se curvarem para dentro — compartilha mecanismos fisiopatológicos semelhantes com a doença de Peyronie. Até 20% dos pacientes com DP também apresentam Dupuytren, e ambas as condições fazem parte de um espectro chamado fibromatoses sistêmicas. Outros locais podem ser afetados pelo mesmo processo fibrótico, como a planta do pé (doença de Ledderhose). A presença de Dupuytren em um homem é considerada fator de risco para desenvolver Peyronie.
🔹 4. O primeiro tratamento aprovado especificamente para a doença só veio em 2013 Por séculos, os médicos trataram a doença de Peyronie com recursos empíricos — vitamina E, ultrassom, radioterapia local e diversas outras tentativas sem comprovação sólida. Foi apenas em 2013 que o FDA (agência regulatória americana) aprovou o primeiro e único medicamento especificamente desenvolvido e testado para a doença: a colagenase de Clostridium histolyticum (CCH), comercializada como Xiaflex nos EUA. A aprovação foi baseada nos resultados dos estudos IMPRESS I e II, os maiores ensaios clínicos randomizados já realizados sobre a doença de Peyronie.
🔹 5. Muitos homens demoram mais de 2 anos para procurar ajuda médica Pesquisas de perfil epidemiológico mostram que a grande maioria dos homens com doença de Peyronie leva mais de 2 anos entre o surgimento dos primeiros sintomas e a primeira consulta com um urologista. Os motivos mais citados são vergonha, crença de que “vai passar sozinho” e desconhecimento de que existem tratamentos eficazes. Esse atraso tem consequências diretas: quanto mais tarde o tratamento é iniciado, menores as chances de resposta ao tratamento conservador e maior a probabilidade de necessidade cirúrgica. Falar abertamente sobre saúde sexual masculina não é frescura — é prevenção.
➡️ Veja também: Quando procurar um urologista
Mensagem do Dr. Felipe Vidigal
A doença de Peyronie é uma condição médica séria, mas com opções reais e eficazes de tratamento. O diagnóstico precoce, a compreensão das fases da doença e a escolha do tratamento correto — feita em conjunto entre o paciente e um urologista experiente — são os pilares para a recuperação da função sexual e da qualidade de vida.
Se você ou alguém próximo apresenta sintomas compatíveis com a doença de Peyronie, não adie a consulta. O silêncio e o constrangimento são os maiores obstáculos ao tratamento. Cuide da sua saúde sexual com a mesma seriedade que cuida de qualquer outra área da sua saúde.